Lápis Zen

BILL WATTERSON: Conselho de um cartunista
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Bill Watterson é o artista e criador da (na minha humilde opinião) melhor tira em quadrinhos de todos os tempos, Calvin e Haroldo (Hobbes!). Eu era muito novo para dar o devido valor quando ela foi publicada pela primeira vez, entre 1985 e 1995, mas comecei a devorar as coletâneas em livro logo depois. Acho que meu irmão tinha algumas coleções e eu devo ter lido dezenas de vezes. Fiquei fascinado e lembro de copiar muito os desenhos de Watterson quando era criança (o cabelo do Calvin era sempre o mais difícil).

Para mim, Calvin e Haroldo (Hobbes!) é o ápice do cartunismo – aquela rara tira que tem texto primoroso MAIS arte deslumbrante. Uma tira que conseguia transmitir a alegria da infância, o absurdo da humanidade e o poder da imaginação através da relação entre um menino e seu tigre de pelúcia. E o mais importante, uma tira que sempre rendia risadas. Folheio meus livros de Calvin e Haroldo (Hobbes!) algumas vezes por ano, não mais para ler de cabo a rabo, mas só para passar um tempo no mundo de Calvin e me lembrar do potencial dos quadrinhos.

Fora Calvin e Haroldo (Hobbes!) ser a HQ que eu estimo mais do que qualquer outra, Bill Watterson é minha maior influência criativa e alguém que admiro muito enquanto artista. O porquê:

* Depois de ser demitido do cargo de cartunista de política do Cincinatti Post, Watterson decidiu focar-se nas tiras. Falido, ele se viu obrigado a morar com os pais de novo, e tinha um emprego fazendo layouts para publicidade que odiava, enquanto desenhava quadrinhos no tempo livre. Ele passou quatro anos nesse emprego horrível, enviando tiras para os syndicates até Calvin e Haroldo (Hobbes!) ser aceita. A respeito deste período, Watterson escreveu: “A única maneira de aprender a escrever e desenhar é escrevendo e desenhando… persistir diante da recusa contínua requer um amor profundo pelo trabalho em si, e foi por aprender essa lição que eu não considerei Calvin e Haroldo (Hobbes!) uma coisa pronta, mesmo quando a tira decolou, anos depois.”

* Watterson abriu mão de milhões (talvez centenas de milhões) de dólares por nunca ter licenciado nem vendido Calvin e Haroldo (Hobbes!). Ele teve uma longa e traumática disputa com seu syndicate quanto aos direitos de licenciamento. E embora tenha saído vencedor, ficou tão desiludido com a indústria que quase abandonou o cartunismo. “Trabalhei bastante para conseguir esse emprego, e trabalhei bastante depois de conseguir para deixar que outras pessoas saiam por aí com a minha criação depois do sucesso. Se eu não pudesse controlar do que trata e o que representa meu trabalho, então o cartunismo teria pouco significado pra mim.”

* Por sorte, Watterson não desistiu e ao invés disso tirou um ano sabático. Ávido para revigorar seu mojo criativo no retorno, Watterson propôs um layout radicalmente novo para suas tiras coloridas de domingo. Para quem não tem familiaridade com a linguagem das tiras, durante a semana uma tira de jornal tem seis tiras ‘diárias’ (geralmente em preto e branco, uma faixa, 3 a 4 quadros) e uma tira dominical que é maior e colorida. Até então, a tira de domingo era composta de três faixas de quadros e ficava assim. O layout era restrito e a faixa superior tinha que ser totalmente descartável porque muitos jornais cortavam ela fora e só publicavam as duas faixas para poupar espaço e socar tantos quadrinhos (ou palavras cruzadas, ou anúncios) quanto pudessem.

Watterson estava cansado das restrições de formato e queria mais espaço para experimentar e testar sua capacidade narrativa. Então ele (com apoio do syndicate) fez uma proposta audaz aos editores de jornal: ou eles publicavam as tiras de domingo em metade da página, sem cortes, ou não publicavam de jeito nenhum. Nesta época, Calvin e Haroldo (Hobbes!) estava saindo há mais de cinco anos e fazia grande sucesso, então Watterson tinha cancha para fazer uma dessas. Apesar de temer cancelamentos, ele ficou surpreso ao ver que a maioria dos jornais apoiava a mudança. Livre dos grilhões das faixas e de quadros, Watterson nos deu tiras lindas e visualmente empolgantes que não se via desde os dias de glória das tiras de jornal, nos anos 1920 e 1930. Ele ficou livre para criar tiras como esta, esta e esta. “Os últimos anos da tira, principalmente as dominicais, são do que eu mais me orgulho. Foi o mais próximo que pude chegar da minha visão de como a tira devia ser.”

* Depois de trabalhar por dez anos na tira, quando Calvin e Haroldo (Hobbes!) estava no auge da popularidade e era publicada em mais de dois mil jornais, Watterson parou. Ele se entregara de corpo e alma ao projeto durante dez anos, havia dito tudo que queria dizer e queria sair por cima. “Eu não queria que Calvin e Haroldo (Hobbes!) se acomodasse na repetição, sem desafios, como acontece com muitas tiras de longa data. Eu estava pronto para ir atrás de outros desafios artísticos, trabalhar num ritmo menos frenético, com menos conflitos comerciais, e… dar mais equilíbrio à minha vida.” Desde que aposentou a tira, Watterson começou a trabalhar com pintura e música.

É incrível, se você parar para pensar. Você diria ‘não’ a milhões, e sério, MILHÕES de dólares em merchandising? Não sei se eu ia conseguir. Você deixaria de criar sua arte quando milhões de pessoas admiravam seu trabalho e queriam mais? Não sei se eu deixaria.

As republicações de Calvin e Haroldo (Hobbes!) ainda saem em mais de 50 países e as tiras ainda têm o frescor e a graça de 20-25 anos atrás. Ela tem uma qualidade atemporal e vai continuar a divertir fãs de quadrinhos por gerações e gerações. É o que acontece com arte bem feita.

- A citação usada nesta tira veio de um discurso de formatura que Watterson deu em seu alma mater, o Kenyon College, em 1990. Há uma bela matéria sobre o discurso no Brain Pickings. Esta HQ é basicamente a história da minha vida, fora eu ser um pai-que-fica-em-casa só de dois cachorros. Aconteceu inclusive do meu ex-chefe perguntar se eu queria voltar ao emprego.
- Meu sonho original era ser autor de uma tira de jornal de sucesso e criar o novo Calvin e Haroldo (Hobbes!). Não é um emprego que ainda exista, pois os jornais estão sumindo e a seção de quadrinhos vai ficando cada vez menor, geralmente espremida até cair fora do jornal. Passei anos mandando propostas a syndicates quando tinha 20 e poucos anos e ainda tenho as cartas de recusa por aqui. Acabei percebendo que era um sonho bobo (e outra, meu trabalho não era bom o bastante) e decidi que meu lugar era nos webcomics. É de salivar ficar imaginando o que Watterson conseguiria com os webcomics, dadas as possibilidades infinitas da mídia digital.
- Meu estilo já é influenciado por Watterson, mas esta é a primeira vez que eu intencionalmente tentei imitar como ele desenha. Foi divertido rever tiras de Calvin e Haroldo (Hobbes!) na semana passada, enquanto trabalhava nesta HQ, e foi um humilde lembrete de que ainda tenho muito a fazer para chegar lá.
- As citações que usei no texto acima vêm da introdução de The Complete Calvin and Hobbes, que fica com todo orgulho na minha mesa.
- Obrigado à Marilyn, à Emily, à Joseph e a Suchismita por enviar este discurso.


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BILL WATTERSON: Conselho de um cartunista

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BILL WATTERSON: Conselho de um cartunista — Página 1

Cadastrada em:
06/09/2013

Tradução:
Érico Assis

Letras:
Rodolfo Muraguchi

Revisão:
Fabiano Denardin



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